27 de fevereiro de 2014

Extensão (1)...

A revisão de Armindo Monstro continuam a bom ritmo, isto é, ao ritmo possível. Hoje foi a vez do capítulo V receber alguns melhoramentos na sua abertura.  Fiquem com um excerto do primeiro parágrafo.

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O dever de cada um era ir à igreja naquele domingo e ninguém podia faltar. A aldeia mobilizara-se como é costume a cada ocasião solene, ou seja, segundo as dimensões do espaço, tempo e género. O espaço restringia-se à berma da estrada que ligava o café do senhor Álvaro Galo até à porta igreja. Nesta faixa de asfalto quente e ondulante, os habitantes da aldeia multiplicavam-se em desfile singular, onde cada passo em frente era amplificado ao longo de toda a cadeia de intervenientes. A distribuição dos habitantes no tempo fora normalizada de acordo com a idade de cada um. Os mais velhos haviam sido os primeiros a partir, de modo a compensar a sua sábia e perene lentidão. A estes seguiam-se homens já feitos, machos alfa de peito em riste, barba em versão beta e penteados escorridos com gel gama, baixa. Os últimos elementos que davam corpo ao movimento da aldeia eram as crianças, que, de modo caótico, alternavam entre a frente e retaguarda de seus pais e em clara violação da ordem pré-estabelecida. A última dimensão que moldava a melancólica deslocação era conferida pelo género. A fracção matriarca da aldeia, aquela que já tudo viu, que tudo perdeu ou que tudo fez, há muito que se aglomerara às portas da igreja. Lá dentro, bastiões de velhas mães e viúvas iam suspirando rezas incompreensíveis para o espectador comum, mas que naquele dia, e só naquele dia, ganhavam um significado quase imensurável. E assim, organicamente, sem líderes, planos ou leis, toda a aldeia se movimentava de acordo com um só objectivo, o do respeito comum, e uma só direcção, a da preservação da memória.

1 comentário:

Daniela disse...

Li o Armindo Monstro em 3 dias, mal posso esperar que acabes o livro e espero que publiques. Sou ja uma fa :).
Gosto da tua maneira caracteristica de escrever, as descricoes detalhadas que nao sao aborrecidas (como em muitos livros), por contrario so me fazem rir :)
beijinhos e bor sorte

Trans - Siberiano