24 de fevereiro de 2007

Adeus amigo Yuri…

Quando estamos tanto tempo longe da família e dos amigos num país que não é o nosso, temos sempre uma aptidão para nos aproximarmos de algo ou alguém que nos faça sentir bem. Neste caso, esse alguém chamava-se Yuri Svirezehev, um matemático Russo que estava no instituto há cerca de 10 anos. Apesar dos seus quase 80 anos de idade ainda demonstrava ser portador de uma capacidade mental acima da média. Apesar da diferença de idade eu sentia-me muito próximo do Yuri, tal como ele eu também não tenho família neste país, tal como ele eu não sei falar Alemão. As semelhanças entre nós levaram ao estabelecimento de uma relação de amizade difícil de explicar, em apenas 5 meses o Yuri tornou-se um grande amigo. Tentem imaginar um velhote de cabelos brancos, baixinho e gordinho, sempre com um walkman preso ao cinto a ouvir a antiga bando do exército vermelho a tocar… esse era o Yuri. Nas conversas que tivemos contou-me que escolheu a matemática pois era a única disciplina que lhe permitia explorar todas as outras matérias do conhecimento.

Orgulhava-se bastante do seu passado, fez parte de um dos muitos grupos de trabalho que desenvolveu as equações balísticas dos mísseis soviéticos, abraçou a exploração do espaço como a sua matéria de eleição, possuía no seu gabinete fotografias autografadas de vários cosmonautas Russos, bem como uma fotografia dele a apertar a mão a Mikhail Gorbachev um ano antes da queda da URSS. Tinha na sua secretária dedicatórias dos astronautas americanos da última missão Appolo 17 em 72 e um sem número de menções e prémios atribuídos. Depois da desintegração da URSS veio para a Alemanha, nos últimos 10 anos trabalhou no PIK, nunca parou de trabalhar, a sua última e talvez mais excêntrica teoria, era que a vida apareceu no momento do BigBang, deduziu isto ao fazer uma regressão da taxa à qual se dá a troca genética de umas bactérias primitivas, prolongou a regressão até esta encontrar o eixo do X, ou seja, a origem do inicio da troca genética. Ao olhar para o gráfico viu que as linhas tocavam-se em t= 13 biliões de anos atrás, ou seja, mais ao menos pela altura da criação do Universo. Excêntrico ou brilhante? Nem uma coisa nem outra, era apenas o Yuri.

Fui das pessoas a falar com o Yuri, uma hora e meia antes de falecer esteve no meu gabinete, um dia antes tinha-me oferecido um tabuleiro de xadrez por o ter ajudado nas mudanças. Recordo o dia em que me apresentou a filha (que por curiosidade mora em Lisboa) para ela praticar o Português, um dia até me pediu para ajudar a sobrinha nos trabalhos de casa de Inglês via mail. Recordo as tardes passadas no seu gabinete a ouvir histórias de outro tempo enquanto a neve caía lá fora, recordo o Yuri com uma pessoa que viveu uma vida linda. Apesar de ter falecido, a sua morte foi sem dor, tranquila, no eléctrico a caminho de casa a ouvir musica como sempre e isso deixa-me feliz…

Em apenas 5 meses o Yuri marcou a minha vida, a sua vida foi longa mas ainda assim pareceu curta para tudo o que aquela mente brilhante queria fazer… Foi uma pessoa inspiradora vinda de um país estranho e de um tempo passado, mas deixou em mim algo que levarei para o futuro onde quer que este me conduza…

2 comentários:

Ju disse...

Acho que as coisas mais maravilhosas da vida são as pessoas, principalmente aquelas que nos marcam e nos permitem aprender. E não deve ser nada fácil quando perdemos alguém que nos diz tanto :( quando temos que nos despedir de um amigo...

Ana Raquel disse...

Amigo é aquele que mesmo não estando lá, estará sempre presente em todos os momentos, nem que a sua presença seja apenas uma memoria dos tempos partilhados.
Luis, não fiques triste por o Yuri ter partido... alegra-te pelo que com ele aprendeste.

Trans - Siberiano