29 de abril de 2014

A rua do verdadeiro profeta...

É curioso como uma rua, um espaço, uma janela, nos transportam no tempo sem sair do mesmo local. Numa visita apressada pela cidade de Vila Real, repousaram os meus olhos numa rua modesta, velha, escura. Apesar do sol do meio dia que fazia sentir, o pavimento e as fachadas permanecia na sombra. Será que a rua somos nós? Vila Realenses, povo fechado na sombra de um interior que não existe. Serão estas casas imitações de betão baratas à escala 1:infinito do Marão à esquerda e Alvão à direita? Não sei. Só sei que este espaço me fez parar, olhar, fotografar. Já passei por este local inúmeras vezes de forma apressada, distraída, triste e contente. Mas nunca lá passei de forma tão presente como hoje, tão intensa como agora, tão viva como neste momento. É como se pudesse tocar o frio perene do interior das casas sem ter que lá entrar, cegar-me com a escuridão das janelas fechadas sem ter que abrir os olhos, cheirar o odor a simpatia nas lojas que hoje estão fechadas. É como se pudesse escutar as pessoas, as conversas e as emoções emanadas do granito.


A pequena rua, tão esquecida e escura, materializa a penosa falsidade de uma religião que nos tolhe. Falso profeta, aquele que regressa da morte sem partilhar com os outros o dom da ressurreição. O verdadeiro e único profeta é a saudade, aquela que nunca morre, aquela que faz das pedras memórias, memórias que, essas sim, nos enchem de vida.

2 comentários:

Daniela disse...

Gostei ;)
Ou passaste lá cedo demais ou no domingo não? Para além dessa rua ser uma rua quase esquecida e pacata parece-me que tem mais vida do que mostra a fotografia!

Luis Carvalho disse...

Sim,
passei lá cedo no Domingo!
Ainda estava tudo a dormir :)

Trans - Siberiano