10 de junho de 2007

Regresso às aulas...

Que o tempo ia ser pouco para rever todos os amigos antes de partir já eu sabia, que as emoções iam ser muitas ao ver os antigos colegas já eu esperava. Mas nada me preparou para o sentimento despontado quando visitei uma das pessoas que não esperava de todo encontrar. Ontem visitei a minha professora primária.

A escola pouco havia mudado exteriormente, os jardins são agora mais bem cuidados e a pintura branca que sempre ostentou aparenta não ter mais de 4 anos. Fiquei por instantes imóvel a olhar a familiar porta vermelha escura até que algumas gotas de chuva me lembraram que o melhor era mesmo entrar. Curiosamente quando me preparava para bater à porta ouço um barulho terno e ao mesmo tempo poderoso, ouço passos, risos, gritos, ouço o trinco da porta a ceder. Sou empurrado por crianças na ânsia de sair da escola, enfim, ouço o infantil e doce som do recreio…

No meio da momentânea azáfama um rapaz pergunta-me

-Quem é o senhor?

A sua camisola de malha, as botas, a sua cara suja das brincadeiras olha-me enquanto trinca vigorosamente o pão que tinha trazido de casa. Eu não respondo, fico imóvel, pergunto apenas onde está a professora Benedita… Com a velocidade de um relâmpago ele corre para a sala apregoando “professora está aqui um senhor que quer falar consigo”. Senhor… nunca uma palavra tão familiar se tornou tão estranha, senhor, eu! A afirmação do pequeno rapaz encheu-me de dúvida e alegria. Dúvida de saber se ele tem ou não razão, aos olhos dele eu sou um senhor, sou mais alto, mais velho, e consideravelmente mais lento. Mas não me sinto senhor, nem nada que se pareça, sou Luís, e foi esse Luís que vim reencontrar aqui. A alegria veio com a certeza de saber que a professora Benedita continua a educar bem as crianças, são barulhentas, traquinas, mas muito obedientes. Aquilo que eu buscava começa a revelar-se.

A bata é branca, tal como no primeiro dia de escola em Setembro de 1989. O cabelo é agora mais grisalho, apesar de ainda ostentar a profunda cor negra que tão bem recordo, o andar é decidido e carinhoso enquanto abandona lentamente a sala e sai cá para fora. Por momentos não me reconhece, hesita, eu apenas digo, “Bom dia professora Benedita”. Com um sorriso marcado desce as escadas e abraça-me dizendo a já habitual frase “Luís, estás tão crescido”… Agora sim, agora tinha a certeza. Não sou senhor, sou crescido, as professoras sabem sempre o que dizem…

Recordamos o velho álbum de fotografias com as caras dos antigos colegas. Um deles já faleceu, dos restantes pouco ou nada sei. Não é este o Luís que vim cá procurar… O tempo urge e a chuva cai, após algumas instruções às estagiárias que agora orienta saímos para o recreio. Os alunos estavam de volta da bicicleta que tinha deixado encostada ao muro, basta um bater de mãos para todos se afastarem. Um abraço, os desejos de felicidades e a partida.

No meu caminho de casa repenso-me, fecho os olhos e inspiro, por breves momentos senti-me criança, uma criança que não quero jamais perder.


3 comentários:

amarelinho disse...

"tenho uma lagrima no canto do olho..."

conheces a canção?

Do pouco do que conheço de ti... nunca deixarás morrer a criança que existe dentro de ti...

grande abraço... e obrigado pelo repasto...

Ana Raquel disse...

É tão bom recordar...
Eu própria estive estes dias na treta até às 4 da "matina" a recordar episódios escolares...
E como entendo o sentimento de voltar à escola primária... eu também lá voltei há 2 anos, mas está tudo tão diferente :(.

Conguitos disse...

Não posso não comentar este post.

Muito bem aqui esta um reencontro com uma descrição fantastica. Fiquei a saber que é mais novo ;) mas isso não importa ao caso.

Tb sinto uma confusão pois passei a ser Senhora, deixei de ser menina, e isso assuta-me ainda por vezes. Mas vejo que tem de ser sou adulta :)

Beijinho não ocm sorriso d euma criança mas com o sorriso de uma Mulher que deixou de ser menina.

Trans - Siberiano